Conferência adotou documento que prevê definição futura de metas.
Texto cita erradicação da pobreza como maior desafio do mundo atual.
Primeira página do texto final publicado pela ONU,
com numeração e código de barras. (Foto: Reprodução)
com numeração e código de barras. (Foto: Reprodução)
Os 188 países participantes da Conferência da ONU sobre Desenvolvimento
Sustentável adotaram oficialmente o documento intitulado "O futuro que
queremos", nesta sexta-feira (22).
O propósito da Rio+20 era formular um plano para que a humanidade se
desenvolvesse de modo a garantir vida digna a todas as pessoas,
administrando os recursos naturais para que as gerações futuras não
fossem prejudicadas.
Uma das expectativas era de que a reunião conseguisse determinar metas
de desenvolvimento sustentável em diferentes áreas, mas isso não foi
atingido. O documento apenas cita que eles devem ser criados para adoção
a partir de 2015.
O texto final da Rio+20, intitulado "O futuro que queremos", foi publicado no site oficial da conferência (leia o documento, traduzido para os idiomas oficiais da ONU: inglês, espanhol, árabe, russo, francês e chinês).
A adoção aconteceu às 19h15, quando o embaixador brasileiro Luiz
Alberto Figueiredo consultou a plenária dos líderes e não ouviu objeção.
"Fica assim decidido", concluiu, batendo um martelo.
Também na plenária de encerramento, o secretário-geral da ONU, Ban
Ki-moon, disse que "o documento final que foi adotado por consenso
fornece formação firme para um bem-estar social, econômico e ambiental.
Agora é nossa responsabilidade desenvolver isso". "Não podemos mais
hipotecar o nosso futuro para as necessidades de curto prazo", alertou.
"O documento torna-se, hoje, um marco no conjunto dos resultados das
conferências das Nações Unidas ligadas ao desenvolvimento sustentável",
discursou a presidente Dilma Rousseff aos delegados. "Um passo histórico
foi dado em direção a um mundo mais justo, equânimo e próspero"
A presidente ainda afirmou que o país se orgulha de ter organizado e
presidido "a mais participativa e democrática conferência, na qual
tiveram espaço diversas visões e propostas, buscando sempre manter um
equilibrio respeitoso".
Trecho criticado é mantido
Em relação ao rascunho
aprovado pelos diplomatas no início da semana, o documento adotado em
definitivo pelos líderes, nesta sexta-feira (22), teve apenas mudanças
de formatação, não de conteúdo. Foi mantido, inclusive, o trecho "com
total participação da sociedade civil", que ONGs haviam pedido para ser
retirado porque consideram que foram excluídas do processo de construção
do documento.
O documento prevê, entre outras medidas, a criação de um fórum político
de alto nível para o desenvolvimento sustentável dentro das Nações
Unidas, além de reafirmar um dos Princípios do Rio, criado em 1992,
sobre as “responsabilidades comuns, porém diferenciadas”.
Este princípio significa que os países ricos devem investir mais no
desenvolvimento sustentável por terem degradado mais o meio ambiente
durante séculos.
Outra medida aprovada é o fortalecimento do Programa das Nações Unidas
sobre Meio Ambiente (Pnuma) e o estabelecimento de um mecanismo jurídico
dentro da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (Unclos,
na sigla em inglês) que estabelece regras para conservação e uso
sustentável dos oceanos.
PobrezaO texto estabelece a erradicação da pobreza
como o maior desafio global do planeta e recomenda que “o Sistema da
ONU, em cooperação com doadores relevantes e organizações
internacionais”, facilite a transferência de tecnologia para os países
em desenvolvimento.
Esse sistema atuaria para facilitar o encontro entre países
interessados e potenciais parceiros, ceder ferramentas para a aplicação
de políticas de desenvolvimento sustentável, fornecer bons exemplos de
políticas nessas áreas e informar sobre metodologias para avaliar essas
políticas.
Por atender restrições de países com visões muito diferentes, o texto
da Rio+20 tem sido criticado por avançar pouco: não especifica quais são
os objetivos de desenvolvimento sustentável que o mundo deve perseguir,
nem quanto deve ser investido para alcançá-los, e muito menos quem
coloca a mão no bolso para financiar ações de sustentabilidade. O que o
documento propõe são planos para que esses objetivos sejam definidos num
futuro próximo (veja abaixo um quadro com o que foi negociado).
CríticasO texto da Rio+20 recebeu críticas das
próprias delegações que participaram da conferência e de organizações
não-governamentais. Os negociadores da União Europeia classificaram a
redação de “pouco ambiciosa” e disseram que faltam “ações concretas” de
implementação das ações voltadas ao desenvolvimento sustentável.
Por sua vez, antes mesmo da ratificação pelos chefes de Estado,
integrantes da sociedade civil assinaram uma carta endereçada aos
governantes intitulada “A Rio+20 que não queremos”, na qual
classificam o
texto da conferência de “fraco”.
“O documento intitulado 'O futuro que queremos' é fraco e está muito
aquém do espírito e dos avanços conquistados nestes últimos 20 anos,
desde a Rio 92. Está muito aquém, ainda, da importância e da urgência
dos temas abordados, pois simplesmente lançar uma frágil e genérica
agenda de futuras negociações não assegura resultados concretos”, afirma
o documento, assinado por mais de mil ambientalistas e representantes
de organizações não-governamentais.
A carta diz ainda que a Rio+20 passará para a história como uma
conferência das Nações Unidas que ofereceu à sociedade mundial um texto
marcado por “graves omissões que comprometem a preservação e a
capacidade de recuperação socioambiental do planeta, bem como a
garantia, às atuais e futuras gerações, de direitos humanos adquiridos.”
O documento termina dizendo que a sociedade civil não ratifica o texto
da Rio+20. “Por tudo isso, registramos nossa profunda decepção com os
chefes de Estado, pois foi sob suas ordens e orientações que trabalharam
os negociadores, e esclarecemos que a sociedade civil não compactua nem
subscreve esse documento”, conclui a carta.
|
O que vinha sendo negociado |
Como ficou o texto final |
|---|---|
|
CBDR – sigla em inglês para Responsabilidades
Comuns Mas Diferenciadas, princípio que norteia as negociações de
desenvolvimento sustentável. O princípio oficializa que se espera dos
países ricos maior empenho financeiro para implementação de ações, pelo
fato de virem degradando o ambiente há mais tempo e de forma mais
intensa. |
Havia rumores de que os países ricos queriam tirar esse princípio do texto, mas ele permaneceu. |
|
Fortalecimento do Pnuma – cogitava-se transformar o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente em uma instituição com status de agência da ONU, como é a FAO (de Alimentação). |
O texto prevê fortalecimento do Pnuma, mas não especifica
exatamente como. O assunto deve ser resolvido na Assembleia Geral da ONU
em setembro.
|
|
Oceanos – Era uma das áreas em que se esperava
mais avanço nas negociações, porque as águas internacionais carecem de
regulamentação entre os países. |
A negociação avançou e o texto adota um novo instrumento
internacional sob a Convenção da ONU sobre os Direitos do Mar (Unclos),
para uso sustentável da biodiversidade e conservação em alto mar.
|
|
Meios de Implementação – questão-chave para os
países com menos recursos, significa na prática o dinheiro para ações de
desenvolvimento sustentável. Os países pobres propuseram a criação de
um fundo de US$ 30 bilhões/ano a ser financiado pelos ricos. |
Avançou pouco. O fundo de US$ 30 bilhões não virou realidade. “A
crise influenciou a Rio+20”, admitiu o embaixador brasileiro André
Corrêa do Lago.
|
|
ODS – Os Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável, metas a serem perseguidas pelos países para avançar
ambiental, política e socialmente, eram uma das grandes cartadas para a
Rio+20. |
Os objetivos não foram definidos. Inicia-se apenas um processo para rascunhar quais devem ser as metas até 2013. Elas então devem ser definidas para entrarem em vigor em 2015, quando terminam os Objetivos do Milênio. |
Nenhum comentário:
Postar um comentário