Crise e incertezas não podem fragilizar apoio à Rio+20, diz Dilma
'Não podemos deixar isso acontecer', afirmou presidente na Rio+20.
Países debatem compromissos pela sustentabilidade na conferência.
A presidente Dilma Rousseff afirmou nesta quarta-feira (20) que a crise
financeira mundial tende a fragilizar a disposição dos países a um
acordo vinculante, mas que "não podemos deixar isso acontecer". O
discurso foi feito na abertura cerimonial da Conferência das Nações
Unidas para o Desenvolvimento, a Rio+20.
Chefes de Estado estão reunidos no Rio de Janeiro para assinar um acordo de promoção do desenvolvimento sustentável.
“Em um momento como este, de incertezas em relação ao futuro da
economia internacional, é forte a tentação de tornar absolutos os
interesses nacionais. A disposição política para acordos vinculantes
fica muito fragilizada. Não podemos deixar isso acontecer”, disse Dilma.
"Tenho convicção – e esta conferência é disto uma prova – de que é
grande nossa vontade de acordar. (...) A recuperação para ser estável
tem de ser global.”
Segundo a presidente, "a crise financeira e as incertezas que pairam
sobre o futuro da economia mundial dão uma significação especial à
Rio+20".
No discurso, a presidente afirma que importantes economias estão "em
crescimento muito lento, quando não estão em recessão, e sofrem abalos
em suas contas públicas e em seus sistemas financeiros".
"É certo que os países em desenvolvimento passaram a responder por parcela cada vez mais significativa do crescimento mundial."
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Dilma disse que o "Brasil tem procurado fazer a sua parte" e criticou
políticas de ajuste que "atingem a parte mais frágil da sociedade: os
trabalhadores, as mulheres, as crianças, o imigrante, o aposentado, o
desempregado, sobretudo, quando se tratam de jovens".
"São modelos de desenvolvimento que esgotaram sua capacidade de responder aos desafios contemporâneos."
Segundo a presidente, a concretização do desenvolvimento sustentável
pode ser traduzida em três palavras: "crescer, incluir e proteger".
Dilma afirmou ainda que "várias conquistas de 1992 (Eco 92) que ainda
permanecem no papel". “Nossa conferência deve gerar compromissos firmes
no ramo do desenvolvimento sustentável. Temos que ser ambiciosos",
discursou.
"A tarefa que nos impõe a Rio+20 é desencadear o movimento de renovação
de ideias e de processos, absolutamente necessários para enfrentarmos
os dias difíceis em que hoje vive ampla parte da humanidade", afirmou a
presidente.
"Sabemos que o custo da inação será maior que o das medidas
necessárias, por mais que essas provoquem resistências e se revelem
politicamente trabalhosas", complementou.
'Consenso'
Dilma também elogiou o documento apresentado pelas delegações aos
chefes de Estado, para aprovação que, segundo ela, "consagra avanços
importantes". Na terça, delegações receberam e aprovaram um texto com 49
páginas (Veja ao final algumas das principais medidas discutidas e aprovadas).
"O texto aprovado pelas consultas pré-Conferência representa o consenso
entre os diversos países aqui presentes. É o resultado de grande
esforço de conciliação e aproximação de posições para avançarmos
concretamente na direção do futuro que queremos."
Entre os avanços do documento, afirmou Dilma, está a introdução da
erradicação da pobreza como "maior desafio global que o mundo enfrenta".
"Pela primeira vez, num documento deste tipo, falamos da igualdade
racial e não-discriminação", destacou. "Mas caberá a nós, dirigentes
mundiais, chefes de Estado e de governo, ministros, funcionários, enfim,
aos representantes das nações aqui presentes demonstrarmos capacidade
de liderar e de agir."
Ban Ki-moon
O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, também elogiou o texto da conferência.
"As negociações foram longas, árduas, muito dificeis mesmo. Contudo
fizemos progressos significativos, principalmente nos ultimos estágios",
afirmou.
"Fizemos história esta semana. Estamos perto de fazer um acordo que
pode criar nosso futuro sustentável", disse ainda o secretário, sobre um
texto que organizações da sociedade civil têm considerado pouco
ambicioso.
Dilma abriu a solenidade às 16h30 e apresentou um vídeo enviado pelos
astronautas a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS).
Plenárias
A segunda sessão plenária do segmento de alto nível da conferência começou por volta das 15h15 desta quarta.
O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad,
começou sua fala evocando Deus e desejando aos companheiros "saúde"
para seguir "o profeta". O iraniano defendeu um "compromisso com a
moralidade" na relação entre povos e nações para construir "um mundo
melhor e mais igualitário".
O presidente da Franca, François Hollande,
afirmou que o desenvolvimento sustentável deve ser uma causa planetária
e não deve ser visto como um entrave para o crescimento econômico. “O
desenvolvimento sustentável não é um entrave, é uma oportunidade",
afirmou.
Reações
Durante a primeira plenária da cúpula de alto nível, representantes da sociedade civil fizeram fortes críticas ao documento, que será negociado até sexta-feira (20).
Durante a primeira plenária da cúpula de alto nível, representantes da sociedade civil fizeram fortes críticas ao documento, que será negociado até sexta-feira (20).
A neozelandesa Brittany Trifford, de 17 anos, discursou aos chefes de Estado (veja no vídeo ao lado).
"Suas promessas não foram quebradas, mas foram esvaziadas", disse
Brittany. "Você estão aqui para salvar as suas peles ou para nos
salvar?", questionou.
Cerca de 20 mil pessoas ocupavam no final da tarde a Avenida Rio Branco, no Centro do Rio de Janeiro, em protesto coletivo
na Rio+20. Carros de som, bandeiras, faixas, artistas e até uma escola
de samba apoiam as mais variadas causas, em um clima pacífico.
Mais cedo, em discurso, nove representantes de grupos da sociedade
civil, como crianças, mulheres e ambientalistas, criticaram publicamente
o rascunho do documento resultante da conferência e pediram que os
governos consigam revertê-lo.
Em entrevista, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota,
minimizou a reação negativa de parte de sociedade com relação ao
rascunho do documento final. "O governo brasileiro criou a conferência
mais inclusiva da história da ONU", disse. Por isso é importante
entender que o processo intergovernamental é diferente do processo da
sociedade civil. Eles se complementam."
Veja abaixo os pontos mais importantes da Rio+20 que vinham sendo
negociados e como ficaram neste último texto aprovado pelos diplomatas,
mas que ainda pode sofrer alterações quando passar nas mãos dos líderes
no segmento de alto nível da conferência:
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O que vinha sendo negociado |
Como ficou no rascunho aprovado |
|---|---|
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CBDR – sigla em inglês para Responsabilidades
Comuns Mas Diferenciadas, princípio que norteia as negociações de
desenvolvimento sustentável. O princípio oficializa que se espera dos
países ricos maior empenho financeiro para implementação de ações, pelo
fato de virem degradando o ambiente há mais tempo e de forma mais
intensa. |
Havia rumores de que os países ricos queriam tirar esse princípio do texto, mas ele permaneceu. |
|
Fortalecimento do Pnuma – cogitava-se transformar
o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente em uma instituição
com status de agência da ONU, como é a FAO (de Alimentação). |
O texto prevê fortalecimento do Pnuma, mas não especifica
exatamente como. O assunto deve ser resolvido na Assembleia Geral da ONU
em setembro. |
|
Oceanos – Era uma das áreas em que se esperava
mais avanço nas negociações, porque as águas internacionais carecem de
regulamentação entre os países. |
A negociação avançou e o texto adota um novo instrumento
internacional sob a Convenção da ONU sobre os Direitos do Mar (Unclos),
para uso sustentável da biodiversidade e conservação em alto mar. |
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Meios de Implementação – questão-chave para os
países com menos recursos, significa na prática o dinheiro para ações de
desenvolvimento sustentável. Os países pobres propuseram a criação de
um fundo de US$ 30 bilhões/ano a ser financiado pelos ricos. |
Avançou pouco. O fundo de US$ 30 bilhões não virou realidade. “A
crise influenciou a Rio+20”, admitiu o embaixador brasileiro André
Corrêa do Lago. |
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ODS – Os Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável, metas a serem perseguidas pelos países para avançar
ambiental, política e socialmente, eram uma das grandes cartadas para a
Rio+20. |
Os objetivos não foram definidos. Inicia-se apenas um processo para rascunhar quais devem ser as metas até 2013. Elas então devem ser definidas para entrarem em vigor em 2015, quando terminam os Objetivos do Milênio. |
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